Significados

Reirazinho
3 min read1 day ago

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art; A la Kandinsky (1960), by Lola Liivat (1928)

É possível amar a realidade sem desejar o aniquilamento dela? Esta foi a premissa que engatilhou um estandarte de novas possibilidades. Tomo um copo d’água e os pensamentos me afogam em diversas complexidades. Não me sinto introduzido nas questões que dividem o homem desde sempre: “o que sou?”, “qual o sentido da vida?”, “existe Deus?”, “o que é consciência?”, “há vida após a morte?”; nada parecido com isso. Caminho de um lado ao outro e sem respostas, as questões desvanecem no vento. São vãs as questões do mundo, e são vãs porque assim o desejamos.

É como se eu estivesse atravessado por respostas e tivesse atingido o invólucro delas. Não estou no epílogo da existência, mas no clímax — todos os movimentos do mundo são o clímax.

A vida é um eterno pulsar, como numa história, onde tudo fica agitado e o acaso devora o ser e o tempo. Passam diversos rascunhos de ideias perante nós; são chamadas ciências, filosofias, artes. É por isso que odeio tudo. O homem falha em entender, porque parte de um fractal para explicar o todo; — a ciência — peremptória prepotência de conhecer a realidade — é um espectro que estuda o elemento subjetivo e tenta objetivá-lo. Por mais interessante e útil que seja, ela é um recurso mesquinho que o homem conseguiu tocar o véu da realidade.

Nas entranhas da ciência, chegamos à magnânima e falsa sensação de conhecimento: a filosofia. Matéria feita de erro, pois como qualquer outro fractal, é um pedaço do todo que tenta objetivar a si própria e o todo fica no jugo dela. São argumentos estruturalmente lógicos e rígidos, que aceitam premissas e negam outras; então surgem, das outras, novos modos de refutar ou repensar outros argumentos. Numa ouroboros de conceitos, o homem perde a noção das coisas. A suprateoria, portanto, a crítica teórica da própria, é patética. Estou, ironicamente, filosofando e odeio pensar. É nojento, vil e detestável pensar, considerando o problema das perspectivas.

Tudo é fé, a religião não é Deus, mas a própria crença, seja ela qual for.

Resta se esconder em sombras de marasmos feitos de arte; eu me escondi na literatura. Escrevo para afastar diabólicos dilemas, fugindo da inconsciência. Quando mais fujo, mais me encontro. A prosa é um esconderijo dos mais fracos, porque ela é excessiva. Diz, grita, xinga e fala muito mais do que deveria. Na literatura, usamos a linguagem como matéria formal para dizer algo. Mas dizer já é errôneo. A prosa mente, assim como fiz e continuarei fazendo. Teorias estéticas são quase científicas — estudam fórmulas de dizer o indizível, e, na genuína e benevolente atitude de ajudar os escritores, ela os mata.

Fui à poesia e, nas sombras, não fui resgatado, pelo contrário, minha alma queimou. Odeio a poesia mais do que a prosa, porque a ineficiência do verso ainda é insuficiente para me acalmar. Desassossego. Torturado. Estranho. Mesmo o mais nobre haicai não serve; a fala verbal, ou a escrita, é serva da desgraça. Seríamos mais genuínos se fossemos silenciosos.

Os significados para mim se mesclam. A metáfora ganha forma e a poesia vira prosa. Afogado num mar de incertezas, relâmpagos feitos de versos despencam em mim. Para explicar tudo isso, usei a lógica baseada em argumentos que revela um fragmento, que ceifará as pessoas nas quais concordam e as que discordam.

Outro gole d’água cheia de cacos dramáticos. Quem me dera não existir…

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Reirazinho
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Written by Reirazinho

Sou feito de palavras não ditas e de melancólicas emoções. Escrevo o meu mundo com poesias e prosas.

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